quinta-feira, 30 de abril de 2015

3 de Maio antigamente

Quando eu era nova e fazia aniversário, o dia tinha um cheiro diferente. A tarde no Eldorado tinha um cheiro especial. Uma coisa gostosa, esquisita, que eu só sentia no dia 3 de maio. Mágico. Mamãe passava o dia todo na cozinha de avental, preparando bolos infinitos (de cenoura, de Fanta, bolo de chocolate, bolo salgado de atum, bolo salgado de sardinha, bolo salgado de legumes, o bolo gigante de aniversário), salgado, salgados, doces - olho de sogra, brigadeiro (outra lenda), cajuzinho, etc, empadinhas, pasteizinhos, pates... bolos. Bolos... bolos... o lendário bolo da Marilene - aposto que 85% das pessoas só ia nas minhas festas por causa do bolo da mamãe. E o resto por causa da empadinha.

Por volta das 7 da noite a casa se enchia - e a mamãe só saía da cozinha com a vela para os parabéns. E a sala, os quartos, o corredor e a cozinha ovais (do tamanho de um ovo) se enchiam de parentes, algumas vezes vizinhos, mas sempre parentes: primas, primos, tios, tias, vovó. E o chão se enchia de doces pisados, refri derramado, e outras coisas que caiam ou derramavam. E a cama se enchia de presentes: LPs da Xuxa, relógios da Xuxa, canetinhas, perfumes, livros, bonecas, pelúcias. E a casa se enchia de barulho. E o telefone tocava e era pra mim e era alguma tia que não pode vir desejando muitas felicidades e um "bom marido" mas eu não conseguia ouvir direito por causa do barulho e repetia "brigada, brigada, amém." E na hora dos parabéns eu me posicionava na frente do bolo no dilema "de quem é o primeiro pedaço?" e "com quem será que eu vou casar?" "eu vou casar?" E o dia acabava com a casa uma ... (que adjetivo se usa para apartamento depois de festa?) e mamãe prometendo que ano que vem não tem, mas sempre tinha.


Até que eu fiquei velha.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Birthday wishes

 
Felicidade. Paz. Amor. Alegria. Felicidade. Sucesso. Bençãos. Tudo de bom. Prosperidade. Felicidades. Descobertas.  Felicidades.

Vamos lá, desejos de aniversário! 
Comecem a se tornar reais!

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Saí do Facebook

Saí do Facebook. Fui poupada de muitos comentários de vitórias do Galo e derrotas do Cruzeiro. Isso me poupou de ler comentários revolucionários e repetitivos e políticos. Fui poupada de ler as reclamações dos outros, as indiretas diretas, e de ser adicionada como amiga virtual de quem me ignora na vida real. 

Perdi muita coisa também. As fotos da viagem da amiga, as notícias da chegada do nascimento dos bebês, as fotos cronológicas dos bebês que cresciam. Não pude curtir nem comentar as fotos dos outros. Muito menos as fotos dos outros nas quais eu aparecia. Os alunos que tive esse ano não me acharam no Facebook. Nem as novas amizades que fiz. Não tive crises depressivas por me achar pior que as pessoas que exibiam suas fotos de viagens pela Ásia, nem das que exibiam suas fotos perfeitas de casamento. Não ganhei dezenas de mensagens com a palavra “paaaraben\zzz” em Maio, mas também me forcei a ligar e a visitar as pessoas nos seus aniversários ao invés de copiar e colar uma mensagem de parabéns. Nem fui convidada para eventos que começam as 11h da noite e só terminam quando a cerveja acaba. 


O ruim é que perdi o contato com algumas pessoas. 

O bom é que perdi o contato com algumas outras pessoas. 
E apesar de tudo que perdi, acho que valeu a pena cuidar da minha vida real ao invés de cultivar uma vida virtual, irreal no fêice.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

E um bom marido....

E 3 de Maio é meu aniversário. E as pessoas desejam muitas felicidades e muitos anos de vida.
Minhas tias e minha avó desejam um pouco mais: muitas felicidades e muitos anos de vida, 
E UM BOM MARIDO.

E agora todas as minhas desculpas para ainda não ter um bom marido se esfarraparam, veja só: 

Sou muito nova pra isso. 
Nova? 31 anos!

Eu tenho que terminar os estudos primeiro.
Mas você já formou em Letras 2 vezes! Já tirou todos os certificados de Cambridge! E já terminou o mestrado há 2 anos!

Eu sou feia.
Vou te dar um espelho de aniversário. 

Eu trabalho muito, não dá tempo.
Mas você nem trabalha! Você é professora. 

Sem desculpas. 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

"paaarabenz!!1.."

Oh, facebook, depois de meses sem você, nessa semana eu sentirei sua falta mais que nunca, porque meu aniversário é na terça, e estarei ao léu da memoria das pessoas e não terei você para lembrá-las de que é meu aniversário. Como eu queria que meu nome aparecesse no canto da tela mágica dos perfis das minhas amigas, conhecidas, inimigos ocultos, amigas do outro continente, velhas melhores amigas, ex-alunos, alunos, colegas, ex-colegas, ou seja, todas as centenas de pessoas que habitavam minha vida virtual. Sei que a maioria deles só iria escrever um  "paaarabenz!!1.." no meu mural, e algumas desejariam mais alguns desejos, como "tudo de bom", mas sei que existem aqueles que ficariam felizes de escrever no meu mural nessa data especial. E eu ficaria muito feliz de curtir cada  "paaarabenz!!1.." Então, sem mural, sem lembrete no perfil dos outros, sem vida virtual, sem mudar a idade no perfil, sem curtir comentários, eu completo aniversário nessa terça, e me desejo parabéns por ser sobrevivente feliz, sem vida virtual, sem vida social, e me virando na vida real. 

quarta-feira, 24 de março de 2010

Meus outonos e primaveras




Esta crônica foi publicada no Jornal Estado de Minas de ontem, 23/03/10, na seção de crônicas do caderno D+, que publica crônicas de universitários de qualquer curso de graduação! Então fica a dica: se você faz faculdade e gosta de escrever, não perca tempo, envie sua crônica! = ]


Meus outonos, primaveras e o pé de jasmim

Um dos meus cartões de aniversário de 15 anos se destacou pelos votos inéditos: "que este seja início de primavera na sua vida". Início de primavera em maio? pensei eu. Nascida no outono belo-horizontino, fiquei a refletir sobre o sentido daquela primavera. Ao questionar minhas amigas que passaram uma temporada nos EUA, elas me lembraram que lá as quatro estações são bem definidas, o que não acontece aqui em Belo Horizonte. Daí eu entendi o que minha amiga do cartão queria dizer com primavera em maio - ela se referia à primavera que ocorre em outros países naquela época. Ou talvez à primavera existencial – aquela que é também utilizada para retratar um estado de espírito, como diz Drummond: "Uns a nomeiam primavera. Eu lhe chamo estado de espírito." O que seriam essas quatro estações que eu nunca conseguira vivenciar plenamente? Será que mesmo aqui, em Minas, eu poderia senti-las lá dentro da minha alma?


Pensando sobre isso, lembrei-me do pé de jasmim que fica no caminho que eu traçava diariamente para a escola e que hoje traço dominicalmente para ir à igreja. Para mim ele sempre fora como um oráculo, anunciando a chegada da primavera, quando de repente seus galhos se enchiam daquelas pequenas e cheirosas flores brancas. Aquela árvore também sofreria em si as mesmas questões existenciais sobre as quatro estações? Estaria ela também sujeita às ações do tempo, ao aquecimento global, à ameaça de falta de água? Sim, ela estava, ela e todo o restante da flora e da fauna universais, eu e todo o restante da humanidade. Então por que nos esquecemos dessa cumplicidade com a natureza, por que nos esquecemos nos pequenos atos do dia-a-dia de contribuir com a preservação do meio ambiente? Eu costumo dizer que meus filhos vão plantar uma árvore e usar a lixeira depois de chuparem balas. Isso é muito sério e se toda a minha geração também se comprometer nesse propósito, acho que nossos netos terão uma qualidade de vida melhor. Estamos em março, início do outono belo-horizontino. Dias virão em que no caminho para a igreja observarei "meu" pé de jasmim florido e perfumado e sorrirei para ele grata pelo despertar que sua singela presença produzira em minha alma. Minha prece é para que no futuro a próxima geração ainda o perceba graciosamente postado no meio do caminho, em meio a todas as construções e transeuntes, e que sua presença continue a nos lembrar de que resgatar a harmonia entre humanidade e planeta é prioridade nesses tempos de desenfreado desenvolvimento global.