domingo, 2 de dezembro de 2018

Dia 2: calçados favoritos

Domingo de manhã era a ocasião perfeita para estrear  na igreja o All star novo, branco, alvo mais que a neve. Felizmente ninguém pisou nele. Não choveu. Não pisou na lama. Nem em cocô de gato.

Soa superstição de crente, mas pra ela era uma forma de consagrar o novo a Deus, de quem vem todas as coisas.



Esse era o terceiro ALL star. O primeiro fora comprado nos EUA, pelo mesmo preço que pagaria no Brasil. O segundo e o terceiro foram comprados no Big shopping, em liquidações.


Aliando elegância, estilo, conforto e praticidade, o All star se tornou seu sapato favorito. Nas aulas de direção ajudava no controle de embreagem, nas frenagens, nas trocas de marcha. E foi ele que usava no dia que tirou carteira de motorista.


Quando nova, sonhava com o principe que viria num AllStar branco. Hoje em dia sabia que não seria um principe, mas um homem normal, e que os calcados dele eram o que menos importava. Sabia que o AllStar branco se tornaria bege encardido cor de burro quando foge. E se perguntava quantas aulas ela daria usando aquele AllStar, por quantas estradas da vida iria dirigir com ele, quantos beijos daria em seu marido ainda imaginario usando aquele calçado, em quantos vôos internacionais ela embarcaria com ele (o marido imaginário e o AllStar que ainda era branco) . Quantos funerais, quantas festas de aniversário, quantas reuniões?


Consagrara seus tênis novos a Deus. Mais que isso, consagrara seus passos e seus caminhos a Deus. Seja feita Tua vontade, no ceu e na terra.

Dia 1 Selfie

Dia 1: Uma selfie. E ao fundo a foto da infância, tirada na Sonora.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

De volta a psicoterapia

De volta a psicoterapia de grupo. Lágrimas teimosas a lhe escorrer pelo rosto, e uma mão estendida da psicóloga com um pedaço de papel toalha. Aprendera ao longo dos anos difíceis que em seus atendimentos de alma com pessoas especializadas, ninguém ia mandar ela parar de chorar, como faziam na escola quando ela era pequena. 

Apenas uma mão estendida lhe oferecerá um lenço de papel Kleenex, um guardanapo, ao qual ela vai se agarrar com força e enxugar as lágrimas escorridas pelo rosto. Na psicoterapia de grupo ela ouvia as histórias dos outros, compartilhava sua dor com os outros, e ouvia a psicóloga intermediar as falas com a maestria de quem estudou pra ser doutora da alma, para ouvir o que as lágrimas dizem quando a alma chora. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Eleições 2018

A cada 2 anos, desde quando eu tinha 17 anos e comecei a votar, percebo o movimento que o meu país passa entre meados de Agosto até Outubro. São as propagandas eleitorais. É um ciclo, uma rotina, que envolve debates entre os candidatos, debates nas redes sociais, amizades se desfazendo, alianças políticas se estabelecendo, infinitos papéis com fotos de candidatos e promessas de um mundo melhor. No dia da eleição, após a igreja, visitar a escola onde estudei tantos anos, rever prédios e escadas familiares, votar, e depois acompanhar no dia  seguinte os resultados dos votos do povo, meu e do meu povo. Viva a democracia democrática.  

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Inverno Primavera

Contagem regressiva para o fim desse inverno, que ela se recusou a rimar com inferno. Foi bom, teve ruim, mas já houve inverno pior. Então ela era grata pela sobrevivência feliz. 

Risadas de crianças, abraços no joelho, mensagens inesperadas, bom encontro, esperança reavivada, expressões de gratidão, um doce aqui e acolá, faziam seus dias de inverno mais leves, e ela só podia ser grata. 

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Namoro e o Aurélio

Resultado de imagem para rosinha chicoSempre entendi a palavra “namorar” como um estado civil, assim, como o eterno “solteira”, o amedrontador “viúva”, o tão desejado “casada”, e os que nunca consegui diferenciar: “divorciada” e “separada”. Porém algumas vezes ouvi pessoas usando a palavra “namorar” como um verbo. Ele gosta de namorar. Ela saiu pra namorar. Sair pra namorar? Como assim? O que é namorar? Perguntei ao meu amigo Aurélio - que um dia as traças hão de comer - e ele me contou: Namoro: “Ato de namorar”. Namorar: “Procurar inspirar amor a, andar de namoro com alguém, enamorar-se.” Enamorar: “Inspirar amor em. Deixar-se possuir de amor, apaixonar-se.” Suspeito que ele tinha tendências machistas quando foi escrito na década de 80! Ele definia namorada como “a mulher a quem se namora”, mas namorado é “aquele que é requestado, galanteado”. Namorador é “aquele que namora muito” mas namoradeira: “diz-se de mulher que gosta de namorar e/ou tem muitos namorados”. Muitos namorados? Um só já é difícil conseguir! Mais de duas décadas depois, numa nova edição do dicionário de 2008, revisado conforme o Acordo Ortográfico, a palavra enamorar continua “inspirar amor em” e “apaixonar-se”. Porém a definição “deixar-se possuir de amor” não estava mais lá – só faltou colocar arcaísmo – nunca vi ninguém falando “ela está enamorando-se pelo mancebo”. Incluíram na definição do verbo ficar o seguinte: “Trocar carinhos sem compromisso de namoro.” Misericórdia, o mundo está virado mesmo, agora tem até “ficar” no Aurélio – mas não perdeu o charme Aureliano “trocar carinhos”, super poético, tipo Vinicius de Moraes. Mas tem mais novidades na nova edição: Namoro não é só “ato de namorar”, mas é também “relação de interesse amoroso recíproco”. RECIPROCO!!!  Incluíram também a palavra namoricar que é “namorar por pouco tempo, ou levianamente”. Namorar continua “Procurar inspirar amor a, andar de namoro com alguém, enamorar- se”. Mas acrescentaram: “manter relação de namoro com, desejar muito, cobiçar, cortejar, requestar, andar de namoro com alguém”. A voz feminista falou mais alto e igualaram os gêneros: Namorada é “aquela a quem se namora”, namorado é “aquele a quem se namora”. Namorador é “ aquele que namora muito”. Namoradeira “aquela que namora muito.” Agora eu entendo de namoro. Pelo menos lexicamente falando.

Dia 2: calçados favoritos

Domingo de manhã era a ocasião perfeita para estrear  na igreja o All star novo, branco, alvo mais que a neve. Felizmente ninguém pisou nele...